quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

FOTO NA ESCOLA




Em novembro de 2011, tive o prazer de ser assistente do projeto "Foto na Escola", que tem como objetivo utilizar a linguagem da fotografia como modo de reflexão e valorização do ambiente escolar, através da técnica de fotografia pinhole. O projeto foi idealizado e coordenado pelo fotografo e ator, que também é o presidente do Fotoclube Super Olho, Cleiton de Oliveira, apartir de um estudo seu para a conclusão do curso de fotografia, utilizando a fotografia pinhole como forma de inclusão social, onde seu foco principal passa a ser o processo que o individuo passa, e não apenas resultado final, desenvolvendo um olhar artístico e se fazendo presente na fotografia desde a confecção de sua câmera.

O Foto na Escola em sua primeira edição, aconteceu na Escola Municipal Frei Demétrio Zanqueta, que fica no Setor Pedro Ludovico, em Goiânia, Goiás e patrocinado pela Lei Municipal de Incentivo a Cultura.

Cleiton de Oliveira e aluno

Durante quatro dias, divididos em duas turmas, nos períodos da manhã e tarde, as crianças tiveram noções básicas sobre fotografia, construção de câmera escura e câmera pinhole.


Crianças e Eurípedes dos Santos, produtor do  projeto



Câmeras feitas pelos alunos

A experiência com crianças, que apenas conheciam a estantaniedade da fotografia digital, foi bastante interessante. Elas construíram suas próprias câmeras escuras e, essa foi uma festa para elas, se divertiram bastante quando puderam observar que com dois pedaços de papel preto, um pedaço de papel vegetal e um pedacinho de papel alumínio com um pequeno furo podiam ver a imagem a qual apontavam a sua câmera, refletida no papel vegetal, foi com mágica para eles, que se agitavam com a imagem invertida que se mostrava.

A nossa câmera fotográfica foi construída com caixa de fósforo de madeira e, elas,as crianças, pareciam, tanto eles quanto os professores da escola, incrédulos que poderiam fotografar com uma caixinha de madeira frágil, um filme fotográfico, uma bobina vazia, protegidos com fitas isolante e um pedaço de palito de picolé preso com uma liguinha de latex, apenas isso e não um aparelho cheio de botões e todo um mecanismo complicado por dentro.




Depois de construída a câmera e, explicações dadas, as crianças saíram pela escola, captando imagens do local que passam a maior parte de seu dia e, empolgados divertiram-se muito com a possibilidade de fazerem fotos com aquela geringonça de ante os olhos incrédulos de professores.

A princípio ficamos apreensivos com o resultado final do trabalho das crianças, pois não teríamos a certeza de que eles, apesar de todas as instruções, iriam compreender a importância do tempo de exposição e captação da imagem e o fato de terem que manter a estabilidade de suas câmeras, o que poderia frustrar as crianças que esperavam ansiosas, poderem ver suas fotografias.

Para a primeira experiência deles e, nossa também como o projeto, tivemos uma surpresa, claro que tiveram fotos perdidas, muitas tremidas, com muito e pouco tempo de exposição, mas também tiveram fotos interessantes, bem legais e, mas  legal ainda o olhar e o sorriso  das crianças, ao verem o resultado ,de poder pegar em suas mãos fotografias que fizerem de uma maneira tão simples e gostosa.






Os alunos montaram a exposição, deram nomes as suas fotografias e as colocaram expostas na escola. Para mim, o melhor desse projeto e, da convivência com as crianças, é a parte que não se pode fotografar, a parte que ficará neles e em nós também.

Espero que o que eles tenham vivenciado nesses quatro dias, não somente com relação a fotografia, mas em tudo que passamos e conversamos, possa ter ficado guardada em alguma parte deles e, que em algum momento possa ser útil à eles.










Além do carinho, das cartinhas e abraços e lagrimas, que recebemos das crianças na despedida do projeto na escola Frei Demétrio Zanqueta, levamos a satisfação de termos feito um trabalho gratificante e especial.






Conheça nossos trabalhos acessando:






terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Concurso de Fotografia Eubiose



O concurso tem por finalidade incentivar a sociedade a expressar, por intermédio de 
imagens, a percepção que possui sobre a afirmativa: “Brasil, berço de uma nova civilização”. 
Uma reflexão sobre o Brasil e o Povo Brasileiro: Quem somos nós? Qual o nosso papel para o 
Brasil e para o mundo? Estamos preparados ou nos preparando conscientemente para a 
elevada posição que o Brasil está assumindo no mundo? Quais seriam os nossos valores 
futuros desejáveis como sociedade e como nação?


Poderão inscrever-se no I Concurso Nacional de Fotografia brasileiros e estrangeiros 
residentes no Brasil.

Cada autor poderá participar com  até três  fotos originais, que deverão ser 
impressas e ampliadas (em papel fotográfico fosco ou brilhante) no tamanho de 
20x30cm.

As fotografias poderão ser produzidas em linguagem analógica ou em linguagem 
digital. 

Serão admitidas fotos capturadas por telefone celular.

Maiores informações no site 

O Edital pode ser encontrado para download no link:
http://www.eubiose50anos.org/eubiose/concurso_de_fotografia_files/Edital%20I%20CONCURSO%20NACIONAL%20DE%20FOTOGRAFIA%20DA%20SOCIEDADE%20BRASILEIRA%20DE%20EUBIOSE.pdf

domingo, 15 de janeiro de 2012

Fotografia de negros escravos no Brasil


Desde quando nem me lembro, tenho fascínio em imagens antigas, fotografias que mostram o costume e fisionomia das pessoas e, já há bastante tempo venho procurando fotografias de escravos no Brasil, já estamos mais que familiarizados com pinturas, como as de Debret e Rugendas.


Jean Baptiste Debret

Johann Moritz Rugendas

Mas eu queria o registro real de um instante, porque a fotografia nos mostra sempre o algo mais, a imagem quase que fiel ao que se é na realidade, a pele, a cicatriz, as roupas, olhos marejando, algo que não foi pintado e, meio que por destino, para aqueles que acreditam em sua existência, me deparei com imagens de dois fotógrafos europeus, Augusto Stahl, italiano e o alemão Henrique Klumb, ambos fotógrafos da família real, tendo Klumb dado aulas de fotografia para a princesa Isabel.


Entre alguns de seus trabalhos encontramos registros de negros no século XIX, antes do tal histórico dia 13  de maio de 1888. Depois conheci fotografias de outros fotógrafos como, Marc Ferrez, Victor Frond e Cristiano Júnior.

Nas fotografias reais expressões de mulheres cuidando de crianças brancas, negros em lavouras, em outras mulheres negras e cafusas vestidas como se fossem apenas para aquele registro, de uma forma "romantizada" da mulher negra.

Augusto Stahl- 1865


Augosto Stahl- "Mina Bari"
Cristiano Júnior

Negros com suas faces marcadas de cicatrizes e, mais profundamente em seus olhos tristes, fotos dos últimos anos de escravidão no Brasil.

Sem sorriso, sem alegria, apenas a beleza triste de um povo, de uma época infeliz e equivocada de nosso país. Em muitas fotos notamos a tentativa de amenizar o horror vivido por essas pessoas, que nem considerados seres humanos eram.

Victor Frond

Marc Ferrez- Negra da Bahia

" Os visitantes estrangeiros pararam diante da "roda-viva" que caracterizava o mundo do engenho, das minas e das cidades. é de imaginar o impacto causado pela presença da massa escrava que, exercendo atividades quase que medievais - se comparadas com aquelas em vigência, nos países europeus já industrializados ou em vias de industrialização -, se prestou como modelo àqueles que buscavam documentar o singular"

                                                                                                           (Kossoy e Carneiro)

E assim a fotografia nos ajuda a entender um pouco dessa parte da história brasileira, nos faz imaginar e e perceber como que de fato viviam os negros.

A vida dura, ou quase vida, dos escravos que construíram esse país, não deixou morrer a beleza do povo negro, nem sua herança, apesar de tristes os rostos desses negros retratados, ainda se vê beleza.







Você pode gostar de ler também:


BACELAR, Jeferson e CAROSO, Carlos, Brasil: um país negro? Rio de Janeiro, ed: Pallas, 1999.

KOSSOY, Boris e CARNEIRO, Maria Luiza Tucci, O olhar europeu: o negro na iconografia brasileira do século XIX, São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 2002.






terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O OLHAR FOTOGRAFICO!


Uma foto é a representação da coisa pela própria coisa. Talvez possamos dizer que seja um ícone do que se propõe reproduzir. O critério como a forma dessa coisa irá se representar será uma escolha do fotógrafo, que possui apenas o espaço de um fotograma para fazer isso. Será medido e selecionado por ele, usando do que conhece para poder tentar criar uma atmosfera especifica. Chamamos isso de olhar fotográfico.


A máquina faz fotos, registrando a luz de um instante em um determinado lugar, congelando aquele momento em uma superfície que o conserva para sempre. Esse instante nunca mais voltará, mas estará registrado. O cérebro é influenciado pelo ambiente, pelos odores, pela temperatura, sons, estado de espirito e sentimentos. Nada disso pode ser reproduzido pela máquina, mas cada um que vislumbre a imagem fotografada será instigado por essas sensações, cada qual com seu leque pessoal de lembranças e situações que ira lhe causar uma reação distinta diante dessa imagem preservada, podendo ser bem diferente da realidade na qual a cena foi registrada. 


Uma máquina por si só tira fotos, bastando apontar sua lente para algo e acionar seu mecanismo. Não existe ali um esforço motor no que diz respeito à reprodução do objeto por parte do fotógrafo, ao contrário da pintura e do desenho, onde a realidade é interpretada pelo artista, a fotografia é uma reprodução fidedigna da realidade. A fotografia passa a ser uma afirmação do real, um momento em algum lugar onde a luz se congela. Segundo Philippe Dubois, no livro O Ato Fotográfico, “(...) a relação da imagem com o espaço/tempo é indissociável do ato que a faz ser a imagem fotográfica não é apenas uma impressão luminosa, é igualmente uma impressão trabalhada por um gesto radical que a faz por inteiro de uma só vez, o gesto do corte, que faz seus golpes recaírem ao mesmo tempo sobre o fio da duração e sobre o contínuo da extensão”. 


Mas e o olhar fotográfico? Esse termo é um conceito um tanto quanto abstrato para definir uma percepção própria de cada um da mesma realidade. Indiscutível que cada um veja a mesma coisa por prismas diferentes, filtros pessoais que moldam a relação do indivíduo um com o mundo. Percepções distintas de um mesmo instante. A capacidade de selecionar formas que para o fotógrafo tenha algum significado, tentando levar isso para outras pessoas. “Esse momento único, levantado do contínuo do tempo referencial”, diz Dubois, “torna-se, uma vez pego, um instante perpétuo: uma fração de segundo, decerto, mas ‘eternizada’, captada de uma vez por todas, destinada (também) a durar, mas no próprio estado em que ela foi captada e cortada”. Esta mesma ideia é ressaltada por Susan Sontag, em Ensaio Sobre Fotografia, “(...) todos os fotógrafos são testemunhas da passagem inexorável do tempo, fotografar significa participar na mortalidade, vulnerabilidade e mutabilidade de outras pessoas (ou coisas)”. O olhar fotográfico é fazer uma escolha de qual instante deve ser perpetuado para poder significar algo. Bresson, em seu texto O Momento Decisivo diz “(...) Nós fotógrafos, lidamos com coisas que estão continuamente desaparecendo (...), o que passou, passou para sempre. Nossa tarefa é perceber a realidade, registrando-a quase simultaneamente no caderno-de-esboços que é a nossa câmera. (...) A fotografia implica o reconhecimento de um ritmo no mundo das coisas reais. O que o olho faz é encontrar e enfocar o assunto particular dentro da massa da realidade; o que a câmera faz é simplesmente registrar em filme as decisões tomadas pelo olho. O olho do fotógrafo está sempre pesando e avaliando as coisas”.


As escolhas que o fotógrafo faz é o que determina o valor representativo que essa imagem deverá ter. Lucia Santaella diz em seu livro, O Que é Semiótica, ”…o simples ato de olhar já está carregado de interpretação, visto que é sempre o resultado de uma elaboração cognitiva, fruto de uma mediação significa que possibilita nossa orientação no espaço por um conhecimento e assentimento diante das coisas que só o signo permite”. Assim podemos dizer que a foto é construída antes que ela realmente se forme de fato, sendo criada primeiramente na imaginação do fotógrafo, que tenta construir através de sua própria memoria algum elemento que represente seu desejo, moldando de antemão seu olhar. 


François Laplantine no livro La Description Ethnographique , faz a distinção entre ver e olhar. Segundo ele “(...) olhar é guardar, prestar atenção, observar, vigiar. O olhar demora-se no que vê. Ver o mundo imediatamente tal qual ele é, cujo resultado consistiria em descrever exatamente o que aparece diante de nossos olhos, não seria ver verdadeiramente, mas crer, e crer claramente dentro da possibilidade de eliminar a temporalidade. Seria reivindicar uma estabilidade ilusória do sentido do que a gente vê e negar a vista, e ao visível, sua característica indiscutivelmente mutante”.


Um olhar fotográfico se forma muito antes da oportunidade se materializar fisicamente. Ela se forma na imaginação do fotografo, em seus sentimentos, suas memorias, desejos de exteriorizar aquilo que existe dentro de si através de imagens que ele colhe no mundo reflexo do que é. O olhar fotográfico procura primeiro dentro do fotografo aquilo que ele deseja encontrar do lado de fora.

DUBOIS, Philippe. O ato fotográfico e outros ensaios. Campinas, Papirus, 1994.
SANTAELLA, Lucia. O que é semiótica. São Paulo: Brasiliense, 1983.
SONTAG, Susan. On photography. New York: Dell, 1977.
LAPLANTINE, François. La description ethnographique. Nathan: Paris, 1996.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

VOZ DE COMANDO

Trabalho há aproximadamente cinco anos com fotografias sociais, e durante esse tempo já pude acumular conhecimentos que me engrandeceram como profissional. Comecei fazendo a segunda câmera nos casamentos e aniversários e dessa época tenho saudade da liberdade que eu tinha de fazer fotos mais jornalísticas, valorizando os detalhes de cada evento. Quando passei a fazer a primeira câmera, as responsabilidades aumentaram. 

Cleiton de Oliveira

O fotógrafo da primeira câmera tem que ficar atento para todos os acontecimentos, fazer aquelas fotos que não podem faltar e que com certeza o cliente irá cobrar. Além disso, é o primeiro fotógrafo que regerá as eventuais poses, tendo que ter uma visão geral de todos os detalhes, como o óculos do vovô que está dando reflexo, a gravata torta do tio que já tomou algumas doses, a postura dos noivos em frente a mesa de bolo, as poses irreverentes que a aniversariante pode fazer em cada ambiente de sua festa, entre tantos outros.

Semanas atrás estava conversando com o fotógrafo Ilídio Botafogo, com mais de 30 anos de experiência, ele me disse sobre a importância do fotógrafo ter voz de comando. Com o foco em casamento, ele me disse que uma postura segura e uma voz de comando firme fazem com que os noivos confiem mais em você e suas decisões. Imagine que normalmente os noivos não possuem experiência com a práxis de um casamento e que você será o mentor que irá instruí-lo, passar confiança no que está fazendo tranquiliza os pombinhos apaixonados.

Então, em outras palavras, o fotógrafo tem que saber “mandar” para que tudo saia nos conformes, peça pra sorrir, ficar um de frente para o outro, deite-os no chão, sentados, enfiem, não dê tempo para os noivos duvidarem do que está fazendo. É claro que devemos ouvi-los também, interagir para tornar o ambiente mais propício de se fazer lindas fotografias.
Fica a dica.

Cleiton de Oliveira

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

I AM IN TRAINING DON'T KISS ME

Quando pesquisava para meu trabalho de conclusão de curso, me deparei com a fotografa francesa, Claude Cahan. Antes de começar a escrever sobre ela, gostaria de deixar aqui algumas palavras.

Uma coisa que sempre reparei é que pouco ouvi falar sobre mulheres fotógrafas. Em um curso de extensão na faculdade, onde praticamente tive meus primeiros contatos com a história da fotografia, ouvi sobre vários fotógrafos, como Helmut Newton, do qual sou fã, Man Ray, Richard Avedon, Robert Frank e mais um bocado de nomes consagrados da fotografia mundial, todos homens e, nenhuma mulher.

Já conhecia um pouco o trabalho de Cindy Sherman, quando fazia outra pesquisa e, acho, sem certeza, que era a única que conhecia. Começou fazendo auto-retratos. Famosa por suas fotografias, onde posava fazendo a reprodução  de telas de grandes pintores. 

Provavelmente você já viu uma das famosas fotografias dela, a reprodução fotografia da tela de Caravaggio, "Baco Enfermo",se não viu é essa logo abaixo.


Sem titulo: de Cindy Sherman (1990)


Escreveria um post inteiro sobre ela, mas este aqui é sobre a outra fotógrafa, a Claude Cahan, seu trabalho influenciou Sherman, as duas se fotografam representando personas, a primeira aparece sempre com o rosto sério, quase neutro e Sherman  utiliza várias máscaras.

Claude Cahun foi registrada com o nome de Lucy Renée Mathild Schwob, criada pela avó paterna, pois sua mãe tinha problemas mentais.

Viveu até o fim de sua vida ao lado de sua companheira, a artista e sua meia-irmã Suzanne Malherbe.


Claude Cahun

Lucy Schwob adotou o pseudônimo de Claude Cahun, intencionalmente, pois na França é um nome ambíguo, podendo tanto ser masculino, quanto feminino, Suzanne Malherbe também adotou um pseudônimo, Marcel Moor.

Conheceu André Breton, considerado o "inventor" do movimento surrealista e René Crevel, poeta e romancista francês, que também integrava o grupo de surrealistas, liderados por Breton em Paris.

Participou com outros artistas, de algumas exposições surrealistas em Paris e Londres.

Com a explosão da 2ª Guerra Mundial, Cahun, que também era judia, vai junto com sua companheira, para Jersey, uma ilha britânica na costa da França. Combatia resistentemente a guerra. Fluente em alemão, se disfarçava e, usava da linguagem como sua arma para subverter o exército nazista, infiltrando-se nos acontecimentos militares alemães, elas colocavam nos bolsos dos soldados, nos carros e nas janelas das casas, panfletos traduzidos do inglês para o alemão de relatórios da BBC, sobre as atrocidades e insolências cometidas pelos nazistas.


Fotografia: claude cahan


Cahun e Suzanne Malherbe, não só usavam de ações politicas, mas também artísticas  como forma de manipular e tentar destruir as forças opressoras. Toda a sua luta pessoal e política, seu empenho e coragem de lutar de frente com os nazistas, nos leva a compreender seus auto-retratos. 

Sem nenhuma preocupação com a história da arte, pois ela não se importava com isso, retratava o que a afetava diretamente e, os acontecimentos que observava. Não comungava da ideia de mostrar o talento ,a arte, como uma forma de ganhos financeiros.

Fotógrafa, escritora e atriz, Claude Cahun nos mostra não só na sua vida pessoal, mas também em seu trabalho, a inversão de papéis, a pluralidade de um ser, o conhecimento sobre gênero, beleza e sexualidade. 

Aparecendo em seus auto-retratos, ora trajando roupas masculinas, cabelos curtos ou raspados, o que era totalmente inimaginável e fora de questão na época, ora com trajes femininos, maquiada e cabelos longos.


Fotografia: claude cahan



Fotografia: claude cahan


Seus auto-retratos mostram uma poesia singular, intimista e revolucionária, documentando a realidade que caminhava para a modernidade.

Sua participação no movimento surrealista, desmistificou a imagem feminina dentro do movimento, como um ícone isolado, simbolo do erotismo, dando nova forma de mostrar a mulher dentro do universo surrealista, onde seus representantes eram de maioria masculina.

Ela mostrou as múltiplas possibilidades de identidade do feminino, seu trabalho influenciou  artistas, tais como Nan Goldin, fotógrafa americana que também merece um post, e a já citada neste , Cindy Sherman.



Fotografia: claude cahan


Fotografia: claude cahan



Sua vida e seu trabalho se fundem, como se um fosse a continuidade do outro. O trabalho de Cahun só começou a ser observada com mais atenção e ganhar destaque, quase que no final do século XX, como um dos mais originais e criativos.


Fotografia: claude cahan



Claude Cahun e Suzanne Malherbe, foram presas pelos nazistas no ano de 1944 e, condenadas a morte, entretanto, tal sentença nunca foi cumprida e as duas foram soltas no ano de 1945. Saiu da prisão com a saúde afetada e nunca mais recuperada, devido a problemas de saúde, veio a falecer aos 60 anos de idade no ano de 1954 e Suzanne Malherbe faleceu em fevereiro de 1972 aos 80 anos.



Fotografia: claude cahan

O nome de Claude Cahan não consta nos tratados surrealistas, mesmo ela tendo participado do movimento e, tão pouco encontraremos nos grandes livros de história da arte, mas nem por isso seu trabalho se torna menos importante para a arte. Ela é uma artista, que merece ser sempre lembrada.

Claude Cahun, foi uma notável fotógrafa, não somente pela arte que produziu, mas também por seu engajamento politico, personalidade e ousadia.

Mencionada por muitos devido ser homossexual, considera por outros como um fotografo transexual, do feminino para o masculino, mas o que eu vejo em suas fotografias é uma mulher corajosa em sua atitude de desafiar  a sociedade de sua época, onde a mulher não tinha voz, e mostrar nas suas fotografias, escritos e atitudes, que a mulher também é forte, também pode dialogar de maneira lógica, e política. 

A neutralidade em sua face, a sua imagem careca, à mim, mostra bem essa imparcialidade entre os gêneros, o meio, o equilíbrio, pois ao mesmo tempo em que se traja do masculino, ela é o feminino. Claude Cahun nos revela em suas fotografias as possibilidades de transmutação da identidade feminina.

Enquanto alguns de seus contemporâneos se desnudavam diante das lentes dos fotógrafos para mostrarem, Claude Cahun fazia o contrário, ela se vestia, e como bem disse Michael Rush em seu artigo, "A arte performática vive", a "artista valia-se de disfarces para desmascarar identidades".



Fotografia: claude cahan










Você pode ler mais também aqui:

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Lambe-Lambe

“Olha o passarinho!”


http://fotografoslambelambes.blogspot.com/2010/02/fotografos-ambulantes-no-brasil-os.html


“Olha o passarinho!” – dizia um fotógrafo lambe-lambe na calçada de uma praça. O sujeito precisava de um retrato para documento: sentava-se num banquinho, penteava o cabelo, vestia um paletó com suor de um qualquer, o lambe-lambe ajeitava-lhe a gravata e corria a se meter sob o negro pano que cobria a traseira do seu equipamento.

Na minha primeira infância, quando ia para o Instituto Araguaia, olhava pela janela do Fusca branco do meu pai algumas banquinhas, parecidas com bancas de jornal e que ficavam em alguns pontos do centro de Goiânia, como na Praça Cívica em meados dos anos 1980.

_ Pai o que são essas casinhas?
_ Essas casinhas aí são banquinhas pra tirar foto, minha filha!
_ Nossa, mas é um lugarzinho tão pequenininho! Cabe gente lá dentro?
_ Pois é, é apertado! Mas cabe sim: só quem vai tirar a foto e o fotógrafo!
_ Ah, é? E como ele faz?
_ Uai, minha filha, a gente chega lá e pede uma foto pra documento. Ele pergunta o tamanho, você diz. Daí, ele empresta uma camisa, uma gravata e um paletó. A gente ajeita o cabelo e ele fala assim: “Olha o passarinho!”
_ Eca, mas todo mundo usa a mesma roupa que o outro estranho usou, sem lavar?
_ Ah, ninguém ligava pra isso, não!
_ Devia ser fedido!
_ Ih, a gente nem sentia! Nossa, mas a foto saía perfeita! Antigamente, quando eu cheguei de Belo Horizonte aqui em Goiânia nos anos 60, todo mundo tirava foto de documento na rua! Sabe aqueles retratinhos preto-e-branco que eu tenho de mim quando eu era rapazinho e magrinho? Pois é, muitos eu tirei na rua assim! Pena que hoje em dia quase não se usa isso mais, esses fotógrafos devem tá morrendo de fome, todo mundo tira foto de documento lá no Sakura e no Fujioka...


http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/aniversariodecuritiba/territorio/



Do povo e para o povo

Muitos anônimos, nascidos do povo e produzindo para o povo, poucos se preocuparam em registrar seus nomes nas fotografias. Embora, em Curitiba, também se declarassem como lambe-lambes, esses fotógrafos de rua que tinham seus pequenos estúdios e laboratórios em bancas não foram os primeiros fotógrafos lambe-lambes tipicamente característicos: andarilhos de rua. Aqueles, os mais antigos, eram ambulantes com grandes câmeras-caixotes que atuavam em praças, parques, jardins e locais públicos (FERNANDES JÚNIOR, s.n.; SILVA, 2009). Já, os fotógrafos das banquinhas eram versões mais modernas dos antigos lambe-lambes, pois estando alocados num ponto fixo, não mais se constituíam nômades ou sentados à espera do cliente sob a sombra de uma frondosa árvore numa praça, nem num jardim a céu aberto.





Os fotógrafos de jardim, os primeiros lambe-lambes, ambulantes, fotógrafos instantâneos, trabalhadores informais que ganhavam a vida fotografando populares, registrando a vida citadina, mais comumente produzindo fotos preto-e-branco para documentos diversos, usavam grandes câmeras, muitas vezes artesanais, simples e fabricadas por eles próprios, que além de serem dispositivos fotográficos, eram também mini-laboratórios de revelação e ampliação.

A câmera lambe-lambe era confeccionada com uma caixa de madeira contendo uma objetiva (conjunto de lentes) apoiada sobre um tripé. Era dividida em duas partes: superior e inferior, na inferior havia dois químicos que seriam usados com filmes e papéis fotográficos para o banho, o revelador e o fixador. Quando ia revelar, o fotógrafo enfiava a mão dentro da câmera para fazer a revelação através de aberturas, como sacos ou meias, que impediam a entrada de luz. Usavam como câmera a máquina Bernardi ou máquina “Caixote”, fabricada por Francisco Bernardi, italiano de Bolonha, tendo a câmera sido introduzida no Brasil aproximadamente no ano de 1915 (FRANCO, 2004).



http://lambelambecultural.blogspot.com/


Em seu primórdio, a fotografia direcionava-se à elite e exigia conhecimentos de química e física. Os avanços tecnológicos, a industrialização de equipamentos e materiais corroborou para o barateamento da fotografia e à sua massificação ao final do século XIX. Dessa forma, os lambe-lambes contribuíram para popularizar a fotografia no Brasil ao final daquele século sobrevivendo de maneira bastante escassa até o século XXI, não tendo eles atingido a classe dominante. Seus clientes geralmente eram humildes suburbanos, oriundos de cidades pequenas ou à procura de trabalho. Ofereciam preços abaixo dos estúdios maiores e entregavam as fotografias prontas em menor tempo, o saber da técnica fotográfica passava de pai para filho, mas isto nem sempre necessariamente foi assim (FRANCO, 2004).

Lambe-lambe?

Há várias explicações para o termo lambe-lambe, (observar as referências e indicações para leitura ao final deste post):

Lambe-lambe pode ter surgido pelos antigos fotógrafos que batiam a chapa preto-e-branco e assopravam o negativo para que o calor do ar da boca ajudasse a secá-la. Aí as pessoas passavam e viam o fotógrafo fazendo isto e diziam que ele estava lambendo a chapa (AMARANTE e SEVERINO JÚNIOR, 2002 apud FRANCO, 2004, p.21).

“Para Boris Kossoy (1980), a origem do termo lambe-lambe se refere a um teste que se faz para
verificar de que lado estava a emulsão de uma chapa, filme ou papel sensível. Para evitar o erro de colocar a chapa com a emulsão voltada para o fundo do chassi, o que deixaria fora do plano focal e portanto, com falta de nitidez, costumava-se, (não só o fotógrafo lambe-lambe, mas como qualquer outro fotógrafo que utilizava câmeras de grande formato), molhar com saliva a ponta do indicador e do polegar e fazer pressão com esses dois dedos sobre a superfície do material sensível num dos cantos para evitar manchas. O lado em que estivesse a emulsão seria identificado ao produzir uma leve impressão de ‘colagem’ no dedo” (KOSSOY,1974 apud FRANCO, 2004, p. 21).

Segundo alguns lambia-se a placa de vidro para saber qual era o lado da emulsão o que explicaria o nome. […] Há quem diga que se lambia a chapa para fixá-la, porém a origem mais viável parece estar
ligada ainda ao antigo processo da ferrotipia. Este processo envolvia uma camada de asfalto sobre uma chapa de ferro de mais ou menos 1mm sobre a qual era aplicada a emulsão. Após a revelação com sulfato de ferro, o fotógrafo lambia a chapa, fazendo com que a imagem se destacasse do fundo preto asfáltico pela ação do cloreto de sódio existente na saliva"(KOSSOY,1974 apud FRANCO, 2004, p. 21).

Quando se revelava a foto, após ser retirada do banho com o químico fixador, ela era lavada com água, então, os lambe-lambes passavam a foto na boca pra não ficar muito molhada, com o tempo, alguns passaram a acender um fogareirinho com álcool, e secava a chapa nele (FRANCO, 2004).

No Brasil, embora existam muitas imagens, a História da Fotografia Lambe-Lambe não é algo muito simples de se detalhar devido à carência de registros escritos e ao anonimato de muitos fotógrafos. Sendo que, mais a partir dos anos 1980, as pesquisas a respeito deles tivessem se dado, devido a decadência de tal profissão e técnica fotográfica. Rio de Janeiro e São Paulo foram as principais portas de entrada dos fotógrafos lambe-lambes, imigrantes que vinham da Europa já com o conhecimento de fotografar e revelar ao ar livre. Em Belo Horizonte, no ano de 2004, ainda existiam 6 fotógrafos lambe-lambes na Praça da Estação (FRANCO, 2004).


http://lambelambecultural.blogspot.com/


Em cada cidade brasileira, o perfil dos fotógrafos tende a variar. Por exemplo, em Belo Horizonte, a primeira geração de fotógrafos lambe-lambes em 1922 era em maioria de espanhóis e sírios. Nos anos 1930-1940, decretos impunham cobranças de taxas, licenças e rodízios semanais entre os lambe-lambes na capital mineira. Alguns ficavam restritos à fotografia de documentos, outros viajavam para fotografar festas religiosas no interior de Minas Gerais e ganhar dinheiro. Ao final dos anos 1950-1960, os lambe-lambes mineiros vivenciaram o período de maior rentabilidade com os retratos 3x4 para inúmeros documentos como a carteira de trabalho, de identidade... Utilizando como suporte a técnica de se fotografar em vidro, entregavam a foto pronta em 20 minutos. O mesmo ocorreu em Vitória, pois nos anos 1950, os estúdios levavam entre 3 a 4 dias para entregar o serviço pronto aos clientes. Além dos 3x4, os ambulantes mineiros fizeram fotos para monóculos até o final dos anos 1980 (FRANCO, 2004).


http://lambelambecultural.blogspot.com/


A chegada do filme colorido e do minilab (mini-laboratório) para revelações coloridas iniciou o processo de decadência da fotografia lambe-lambe, pois podia oferecer preços ainda menores e a entrega da foto pronta em menos de 30 minutos, além do que, os próprios lambe-lambes ficavam dependentes dos estúdios fotográficos para comprarem o material para revelação colorida (FRANCO, 2004). Quadro semelhante ocorreu no restante do Brasil que, com as inovações e modernizações tecnológicas tanto analógicas quanto digitais e com a popularização e barateamento da fotografia, direcionaram o tradicional ofício dos lambe-lambes à obsolescência e desvalorização, portanto, a caminho da extinção (FERNANDES JÚNIOR, op. cit.).



Os sobreviventes do lambe-lambe vieram se adaptando ao longo dos tempos, desde a máquina Bernardi às de filme colorido; de monóculos às Polaroid e, agora, seguindo com equipamento digital... (FRANCO, 2004; TASSINARI, 2006). Embora, acredite que lambe-lambe mesmo era o que lambia a chapa, os primeiros, tradicionais e característicos.

Por isso, suscito aos meus comparsas, integrantes do Fotoclube Super Olho, uma provocação: procurar se ainda existe algum fotógrafo lambe-lambe em Goiânia e região, lambe-lambe mesmo, de verdade, que tira foto com a chapa preto-e-branco e tudo mais... Com ele realizar uma entrevista informal e claro: tirarmos uma foto para a posteridade! Quem aceita minha proposta?

Para conhecer mais sobre lambe-lambe e sua história, você poderá consultar também as fontes indicadas.
http://www.iesb.br/moduloonline/napratica/?fuseaction=fbx.Materia&CodMateria=2055

Postado por: Naira Rosana em 08 de novembro de 2011.


REFERÊNCIAS

FERNANDES JÚNIOR, Rubens. Desconhecidos íntimos: o imaginário do fotógrafo lambe-lambe. Disponível em:<http://www.mnemocine.com.br/fotografia/rubens.htm>. Acesso em: 07 nov. 2011.

FRANCO, Marcelo Horta Messias. Profissionais em extinção: o caso do fotógrafo lambe-lambe. Monografia de Conclusão de Curso. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, 2004. Disponível em: <http://www.antropologia.com.br/divu/colab/d25-mfranco.pdf>. Acesso em: 08 nov. 2011.

SILVA, Andressa Ignácio. Fotógrafos lambe-lambes e fotoclubistas: análise de perfil e perspectiva social da produção fotográfica. II Encontro Nacional de Estudos da Imagem. Anais... 12 a 14 mai. 2009. Disponível em: <http://www.uel.br/eventos/eneimagem/anais/trabalhos/pdf/SILVA_Andressa%20Ignacio.pdf>. Acesso em: 07 nov. 2011.

TASSINARI, Marco. Profissão: lambe-lambe. Há 40 anos na lida, fotógrafo se moderniza para enfrentar a concorrência e a falta de material disponível no mercado. 06 jun.2006. Disponível em: <http://www.iesb.br/moduloonline/napratica/?fuseaction=fbx.Materia&CodMateria=2055>. Acesso em: 08 nov. 2011.

INDICAÇÕES DE LEITURA

KOSSOY, Boris. O fotógrafo ambulante: a história da fotografia nas praças de São Paulo. In: Suplemento Literário do jornal O Estado de São Paulo, 24 nov.1974, p.5.

FABRIS, Annateresa (Org.). Fotografia: usos e funções no século XIX. São Paulo: USP, 1991.

FROÉS, Leonardo. Os lambe-lambe. In: Coisas Nossas, Rio de Janeiro, Secretaria de Estado de Educação e Cultura e Mec-Funarte, 1978.

GOUVÊA, Isabel. Lambe-lambe: resistindo à extinção. In: Jornal FotoBahia, Salvador, n.1, jul/1981, p.3.

GRILLO, Margareth. Lambe-lambe: a profissão que a tecnologia desbancou. Disponíel em: <http://www.antropologia.com.br/divu/colab/d25-mfranco.pdf>. Acesso em: 08 nov. 2011.

JORNAL O Norte. Modernidade versus tradição. Disponível em: <http://www.onorte.com.br/noticia/35257.html>. Acesso em: 08 nov. 2011.

SIMINETTA, Persichetti. Lambe-Lambe: a câmera automática no lugar da velha caixa. In: Revista Iris, n.334, p.18-20, janeiro/fevereiro 1981.

SOUZA, Felipe de Paula. Um olhar sobre os fotógrafos Lambe-lambes de Ilhéus, Bahia. Revista Espaço Acadêmico. n.63. ago. 2006. Disponível em: <http://www.espacoacademico.com.br/063/63souza.htm>. Acesso em: 08 nov. 2011.

VASQUEZ, Pedro. Olha o "passarinho"! Uma pequena história do retrato. In: O retrato brasileiro: fotografias da Coleção Francisco Rodrigues 1840-1920, Rio de Janeiro, Funarte e Fundação Joaquim Nabuco, 1983, p.27.

ZUANETTI, Rose; REAL, Elizabeth; MARTINS, Nelson et al. Fotógrafo: o olhar, a técnica e o trabalho. Rio de Janeiro: Senac Nacional, 2002.

IMAGENS E DEMAIS SITES CONSULTADOS


http://www.flickr.com/photos/claudiolara/362436897/
http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/aniversariodecuritiba/territorio/
http://fotografoslambelambes.blogspot.com/2010/02/fotografos-ambulantes-no-brasil-os.html http://www.iesb.br/moduloonline/napratica/?fuseaction=fbx.Materia&CodMateria=2055
http://lambelambecultural.blogspot.com/